Ciganidades, seus jogos e brincadeiras no Brasil
Sousa, Anna Thereza Galdino de
Resumo
Esta pesquisa tem como objetivo analisar a cultura corporal da comunidade cigana Calon no Brasil, com foco em seus jogos e brincadeiras tradicionais, destacando seus significados socioculturais e identitários. Parte-se do reconhecimento da invisibilidade histórica e da marginalização enfrentada pelos povos ciganos no país, contrastando com a riqueza e resistência de suas expressões culturais. O estudo adota uma abordagem qualitativa, caracterizando-se como exploratória-descritiva, e foi conduzido por meio de uma revisão integrativa da literatura. Foram analisadas 21 produções acadêmicas (teses, dissertações, artigos, livros e monografias), selecionadas a partir de plataformas como BDTD, SciELO e acervos de núcleos de estudos ciganos, publicadas entre 2005 e 2025. A coleta e o tratamento dos dados seguiram critérios de pertinência temática e relevância para a compreensão das práticas lúdicas da infância Calon. Os resultados demonstram que, na comunidade Calon, o brincar transcende a mera recreação, constituindo-se como um poderoso mecanismo de socialização étnica, transmissão cultural e preparação para a vida adulta. As brincadeiras, como amarelinha, pião, peteca e, sobretudo, o jogo de baralho, são pedagogias nativas que ensinam valores, normas comunitárias e papéis de gênero. Através da imitação lúdica de situações cotidianas (negociações, cortejos, cuidados domésticos), as crianças internalizam ativamente a cosmovisão Calon. Observa-se uma clara divisão de gênero: meninas são orientadas para a esfera doméstica e do casamento, enquanto meninos são socializados para atividades como o comércio. A pesquisa também evidencia um processo de ressignificação lúdica, no qual brincadeiras da sociedade não-cigana (juron), como esconde-esconde e pique-pega, são apropriadas e transformadas. Práticas como "Acusado" e "perseguição policial" ganham novos significados, incorporando a língua Chibi (Caló) como elemento de proteção e resistência, reforçando a coesão grupal e a identidade étnica. A análise à luz da Praxiologia Motriz de Pierre Parlebas revela que, embora a lógica interna (estrutura) desses jogos possa ser similar, sua lógica externa (significado cultural) é radicalmente distinta, traduzindo valores de autonomia, liberdade e desafio à autoridade. Conclui-se que os jogos e brincadeiras são atos de resistência e reinvenção cultural, fundamentais para a continuidade da tradição Calon. O estudo aponta para a urgência de superar a invisibilidade acadêmica dessas práticas, recomendando a realização de pesquisas etnográficas colaborativas, a criação de repositórios que as registrem como patrimônio imaterial e a inserção desses saberes nos currículos de Educação Física, promovendo uma educação plural e decolonial.
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